O MENINO QUE VENDIA ROSAS
Descalço, pernas finas, o corpo raquítico mal abrigado sob uma
camisa cheia de rasgos,

o menino percorria, todas as noites, os bares
da praia oferecendo rosas vermelhas aos casais que bebiam e comiam,
passando o tempo.

Fazia-o com os olhos tristes pingando dor e sofrimento. Nem
todos, no entanto, entretidos, e dando risadas, ouviam-no fazer a
oferta. Com a voz minguada, como quem pede esmola, dizia:
- Uma rosa, senhor, uma rosa para o seu amor!

E aguardava, por instantes, que a comprassem por qualquer
importância. Uma simples moeda serviria para juntar-se às outras
e completar o suficiente para adquirir um pouco de comida e prover o
sustento da avó idosa, trancada dia e noite no casebre do morro, à
espera de que a morte chegasse para levá-la para um mundo melhor.

As rosas, o menino as apanhava, de manha, no lixo e no refugo das
feiras, meio despetaladas, com hastes quebradas e folhas amarfanhadas.
Durante o dia tratava-as com carinho selecionando as menos
feridas e as colocando, à sombra, num pote com água.
Noite após noite, naquela ronda, mesmo quando o tempo ameaçava
chuva, o menino percorria as mesas dos bares e restaurantes, com a
mesma cantilena:
- Uma rosa, senhor, para o seu amor!
Uma noite o menino sonhou. Viu, de repente, um homem rico que
morava em luxuosa mansão, erguida numa colina que dava vistas para o
mar.

Aliado ao luxo, ostentava sua fortuna, amealhada em negócios, nem
sempre lícitos. Coração insensível, alheio aos sentimentos de
fraternidade, era conhecido como egoísta e avarento. Mas, apesar de
tudo, era figura sempre requestada nos salões sociais e nas reuniões
políticas.
Certa noite, quando regressava de uma festa com a companheira, em
que a bebida e os prazeres mais instintivos se distinguiam pela
fascinação orgíaca, encontrou a dormir, na varanda da mansão, envolto
em trapos, um menino com cerca de doze anos. Assustado, julgando
tratar-se de um pivete aguardando sua chegada para avisar assaltantes
que, decerto, penetrariam no palácio, não hesitou em acordá-lo aos
gritos e pontapés.
- Para fora, ladrãozinho! Para fora!

E desancou-lhe aos socos e empurrões, provocando sua queda escada
abaixo.
Em poucos minutos o menino, sem forças, revirou os olhos e deu um
gemido curto. A vida se esvaiu dele como um fluido que se desprendia.
Vendo-o imóvel, o homem abaixou-se e constatou o crime.
Amedrontado, tomou o corpo indefeso em suas mãos e levou-o até a rua,
abandonando-o no leito de um pequeno canal, que cortava a avenida
ladeada de árvores.
Livre do fardo regressou à casa com a companheira e
desapareceram, porta adentro.
O sonho se desfez nessas últimas imagens.

Acordando, trêmulo, o menino que vendia rosas observou o teto de
zinco do casebre onde residia. Na tela do pensamento, viu que o homem
rico, perverso e egoísta, era ele mesmo, em vida passada há mais de
um século. E a companheira, que a tudo assistira, era a velha avó que
jazia, entre trapos, quase entrevada, na enxerga úmida e apodrecida.
A madrugada veio, silenciosa.
O menino levantou-se, tomou uma caneca de água e mastigou um
pedaço de pão velho. Desceu o morro em direção à feira para recolher,
na rotina de todos os dias, entre os restos atirados ao chão, sobras
de frutas e talos de verdura para a refeição, e as rosas despetaladas.
À noite, nos bares da praia, repetiu a cantilena:
- Uma rosa, senhor, para o seu amor!

Irmão X
Psicografia de Heitor Luz Filho
"Casos e Coisas, Daqui e Daí..."
illuminatti.'.